As inseguranças antigas, no entanto, revelam-se surpreendentemente difíceis de arrancar quando se chega ao quarto.
Um novo estudo realizado na Polónia sugere que uma intervenção física relativamente pequena pode tornar a imagem no espelho consideravelmente mais simpática. Ainda assim, a sensação de se mostrar nua muda muito pouco. O que explica esta contradição - e o que nos diz sobre a forma como as mulheres se relacionam com o próprio corpo?
Um pequeno detalhe com grande impacto
O foco da investigação foi um pormenor que, nos últimos anos, se tornou praticamente uma tendência: as tatuagens. Aparecem em braços, costas ou coxas, exibem-se com orgulho em fotografias de biquíni nas redes sociais e há muito deixaram de ser um fenómeno marginal.
Entre fevereiro e maio de 2023, uma equipa de investigação inquiriu 426 mulheres adultas polacas que tinham sido sexualmente ativas nas quatro semanas anteriores. A idade média era de quase 29 anos. A maioria vivia em meio urbano, tinha um bom nível de escolaridade e estava numa relação.
Cerca de três quartos das participantes tinham pelo menos uma tatuagem. Os motivos mais comuns eram flores, animais ou desenhos abstratos, geralmente escolhidos por razões puramente estéticas.
"Mais de 75% das mulheres tatuadas disseram sentir-se mais atraentes no dia a dia graças às suas tatuagens."
Ou seja: ao olhar para o espelho, as zonas do corpo “redesenhadas” parecem alterar muita coisa. Para muitas, a autoimagem aproxima-se mais de um ideal e surge a sensação de estar “finalmente a ser elas próprias”. Mas é precisamente aqui que aparece uma fratura.
Porque é que a nova autoconfiança fica à porta do quarto
Os investigadores quiseram perceber se este ganho de atratividade também se traduzia na vida sexual. Para isso, recorreram a um questionário consolidado, o Índice de Função Sexual Feminina (FSFI), que avalia áreas centrais como:
- desejo sexual;
- excitação;
- lubrificação;
- capacidade de atingir orgasmo;
- satisfação;
- dor durante o sexo.
Em paralelo, as participantes responderam a perguntas sobre a chamada perceção corporal contextual: até que ponto se sentem desconfortáveis por mostrar o corpo durante o sexo? E quanto é que, nesses momentos, os pensamentos se fixam em supostos “defeitos”?
O resultado foi inesperado: os valores de função sexual foram praticamente iguais entre mulheres com tatuagens e sem tatuagens. Mesmo aquelas que afirmavam sentir-se “claramente mais atraentes” com as tatuagens não apresentaram pontuações superiores.
O mesmo padrão apareceu quando o tema era estar nua perante o parceiro: durante o sexo, as mulheres tatuadas não se sentiram nem significativamente mais seguras nem particularmente mais desconfortáveis do que as não tatuadas. Os comportamentos típicos repetiram-se em todos os grupos:
- preferir fazer sexo no escuro;
- esconder determinadas zonas do corpo com o lençol ou com roupa;
- evitar posições que possam parecer “pouco favorecedoras”.
"A tatuagem facilita o olhar ao espelho - mas não torna automaticamente mais fácil o momento em que outra pessoa olha também."
Relação, saúde, autoimagem: o que realmente influencia a sexualidade
O mais interessante é que outros fatores pesaram de forma bem mais clara do que as tatuagens em si. Em média, mulheres em relações estáveis obtiveram melhores resultados na função sexual. Referiram, com maior frequência, uma vivência sexual mais satisfatória e mais desejo.
O cenário foi diferente entre mulheres solteiras e mulheres com doenças crónicas. Em ambos os grupos, a ansiedade relacionada com o corpo durante a intimidade foi mais elevada. Relataram mais vezes vergonha ou distração por causa do próprio corpo - e isso refletiu-se diretamente no desejo, na excitação e na capacidade orgásmica.
A ligação mais forte surgiu ao observar a ansiedade corporal no momento do sexo: quanto mais uma mulher se sente observada, avaliada ou “insuficiente”, piores tendem a ser as pontuações no FSFI.
"Quem passa o tempo a ‘varrer’ mentalmente barriga, rabo, cicatrizes ou celulite tem pouco espaço para desejo, proximidade e sensações corporais."
A atenção fica presa a zonas consideradas “menos bonitas”, em vez de se orientar para o toque, a excitação e a ligação emocional. Uma tatuagem pode tornar essas áreas visualmente mais agradáveis - mas as avaliações que as sustentam, muitas vezes, continuam iguais.
Onde as tatuagens encontram os seus limites
O estudo também aponta obstáculos metodológicos importantes. A percentagem de mulheres tatuadas foi de 76%, muito acima da média populacional na Polónia, onde, nesta faixa etária, apenas cerca de 16% têm tatuagens. As respostas foram recolhidas online, com recrutamento através de redes sociais, e basearam-se em autoavaliação - fatores que podem enviesar os resultados.
Apesar disso, o padrão geral é claro: mudanças externas como tatuagens - e também piercings, cirurgias estéticas ou certos truques de styling - aumentam a atratividade sentida no quotidiano. Porém, mexem pouco nas raízes dos sentimentos de vergonha na cama.
É precisamente aí que os investigadores colocam o foco. Para dificuldades sexuais associadas ao corpo, recomendam não começar por pensar em novos procedimentos, mas sim em crenças e autoestima. Muitas mulheres carregam desde a adolescência frases internas como “A minha barriga é demasiado grande” ou “Sem um corpo perfeito não posso relaxar”. Uma tatuagem raramente altera essa voz interior de forma duradoura.
O que realmente ajuda as mulheres a sentirem-se mais confortáveis nuas
Quando a ansiedade corporal interfere com a sexualidade, há vários pontos de intervenção. Profissionais de medicina sexual e de psicoterapia tendem a trabalhar em três níveis:
- Pensamentos: que regras rígidas existem na cabeça sobre o corpo “certo”? De onde vêm - e fazem sentido?
- Emoções: o que surge quando o tema é nudez - vergonha, medo, nojo, tristeza? É permitido que estas emoções existam?
- Comportamento: que estratégias de evitamento entram automaticamente - luz apagada, lençol levantado, afastar o parceiro - e como é possível flexibilizá-las passo a passo?
Algumas terapeutas recorrem a exercícios de aceitação corporal: primeiro a nudez a sós em frente ao espelho, depois em roupa interior confortável perante o parceiro e, por vezes, com toque consciente sem pressão de desempenho. O objetivo é deslocar deliberadamente a atenção das “zonas-problema” para a sensação global do corpo.
O parceiro pesa mais do que a tinta
Há ainda outro fator: a reação do outro. Muitas mulheres relatam como um olhar valorizador e interessado do parceiro pode amortecer a insegurança. Pelo contrário, comentários críticos, piadas parvas ou comparações constantes com atrizes pornográficas ou influenciadoras conseguem abalar até uma perceção corporal antes estável.
Conversas abertas sobre o que provoca insegurança na cama são evitadas em muitos casais - por vergonha ou por medo de rejeição. Quando alguém consegue trazer o tema para a relação, muitas vezes cria-se, só então, o contexto para que tatuagens ou outras mudanças possam funcionar como potenciadores de prazer, em vez de serem apenas uma “capa bonita”.
Mais do que aparência: porque é que pequenos procedimentos podem, ainda assim, fazer sentido
Apesar de todas as limitações, o estudo não coloca as tatuagens sob uma luz negativa. Pelo contrário: sentir-se mais atraente no dia a dia é um ganho real. Quem se vê com mais agrado ao espelho de manhã tende a agir com mais segurança, a mostrar maior presença no trabalho e a relacionar-se de forma mais aberta socialmente.
Um detalhe destes também pode iniciar uma nova relação com o próprio corpo. Muitas mulheres descrevem que, por causa da tatuagem, aprenderam pela primeira vez a olhar conscientemente para uma parte do corpo, a tocá-la e a não se limitarem a julgá-la. A partir daí, a aceitação pode crescer lentamente.
O ponto decisivo, porém, não está tanto na tatuagem, mas no trabalho interno que ela pode desencadear: que história é que eu conto a mim própria sobre esta parte do corpo? O que simboliza o motivo? Consigo permitir-me ver este corpo como aliado - e não como inimigo constante?
Quando tatuagens, exercício, moda ou procedimentos cosméticos são encarados com estas perguntas em mente, a mudança física deixa de ser um atalho e passa a ser um ponto de partida. É a combinação entre o exterior e o interior que abre caminho para um bem-estar mais verdadeiro - no dia a dia e debaixo dos lençóis.
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