Os termómetros de exterior mostram a temperatura. Mas não dizem como o ar é realmente sentido - e, nos dias de verão mais abafados, é a combinação de calor e humidade que empurra os animais para lá do limite.
As aves estão sujeitas à mesma física, só que com muito menos formas de escapar. Uma nova revisão feita na Suécia defende que a explicação completa de como as ondas de calor matam ou fragilizam as aves esteve, afinal, escondida nos dados de humidade.
Ondas de calor deixam as aves expostas
O trabalho é liderado por Andreas Nord, biólogo da Lund University, na Suécia. A sua equipa passou em revista o que se sabe sobre stress térmico em aves e identificou um padrão consistente entre continentes.
Sempre que ocorreram ondas de calor severas, as aves ou morreram em grande número ou perderam capacidade de forma mensurável. O peso corporal diminui. A reprodução falha.
Quando o tempo se torna implacável, as aves têm menos alternativas do que a maioria dos mamíferos. O seu organismo já funciona a temperaturas elevadas e, muitas vezes, a sombra por si só não chega.
“Compared to many mammals, birds are almost exclusively diurnal, and they cannot burrow or hide in underground tunnels to escape high temperatures,” disse Nord, autor principal do estudo.
Os esquilos-terrestres conseguem passar a tarde no subsolo. Para uma ave canora, a superfície é praticamente a única opção - acordada durante as horas mais quentes, com pouca margem de segurança.
Estudos sobre calor em aves são limitados
Quase tudo o que a ciência conhece sobre aves e calor extremo vem de uma única zona do mundo.
Os estudos sobre mortalidade em massa têm-se concentrado na Austrália e no sul de África, onde as espécies de deserto e os climas secos tornaram o tema particularmente urgente.
Um estudo com aves de zonas áridas australianas modelou como as necessidades de água e os tempos de sobrevivência vão piorar ao longo deste século, e as mortandades já estão documentadas.
Milhares de periquitos-australianos e diamantes-mandarins morreram numa onda de calor em 2009, na Austrália Ocidental.
Mais de 200 cacatuas-de-Carnaby, espécie ameaçada, foram mortas num único dia no ano seguinte. Já o norte da Europa aparece como um vazio no mesmo mapa - e Nord é claro quanto a essa falha de conhecimento.
“In Europe, particularly in the northern parts, we know almost nothing about birds’ tolerance to extreme weather events and global warming. This is worrying,” disse Nord.
A humidade aumenta o perigo para as aves
O argumento central da revisão aponta para uma variável que ficou, muitas vezes, em segundo plano nos trabalhos anteriores. As aves arrefecem perdendo água - ofegando, vibrando a garganta e recorrendo à evaporação através da pele.
Mas tudo isto só resulta se o ar conseguir absorver a humidade libertada. Quando a humidade sobe, o ar “recusa-se” a receber mais.
Uma ave exposta a 35 °C em ar húmido parece correr um risco muito maior do que a mesma ave sob calor seco de deserto. A temperatura é idêntica, mas o desfecho pode ser muito diferente - porque o ar húmido bloqueia o arrefecimento que, de outro modo, a protegeria.
Trabalhos recentes sustentam esta ideia. Um artigo sobre espécies do sul de África mostra que aves adaptadas a climas costeiros húmidos lidam com temperaturas corporais elevadas de forma muito distinta das que vivem em zonas áridas.
Nord defende que é esta dupla - calor mais humidade, e não apenas calor - que estabelece o verdadeiro limite do que uma ave consegue suportar no verão.
Aves mais velhas têm mais dificuldades
Numa mesma população, nem todas as aves reagem da mesma maneira. Indivíduos mais velhos, doentes, ou já afetados por um ano anterior difícil, estão mais perto do limiar.
Segundo Nord e os coautores, para obter um retrato fiel do risco é preciso acompanhar idade, longevidade e estado geral de saúde em paralelo com temperatura e humidade.
A longevidade entra na equação de forma menos evidente. Espécies de vida longa tendem a recuperar lentamente quando uma onda de calor destrói uma época reprodutiva inteira. As de vida curta recuperam mais depressa, mas perdem terreno quando as más condições se repetem.
Décadas de dados sobre comunidades de aves em zonas semiáridas da Austrália, reunidos numa análise de longo prazo, indicam que a exposição ao calor já está a reduzir as taxas de sobrevivência em toda a região.
Modelação de aves sob calor extremo
Esta revisão não se limita a listar problemas. A equipa de Lund desenvolveu duas novas ferramentas teóricas que podem ser aplicadas por investigadores em diferentes regiões e espécies.
Uma delas junta biofísica e meteorologia para prever onde a sobrevivência e a reprodução se tornam impossíveis para determinada espécie, com base em combinações específicas de calor e humidade - e não apenas na temperatura.
A ferramenta complementar analisa como a capacidade de uma ave controlar a sua própria temperatura corporal - aquilo a que os cientistas chamam termorregulação - pode evoluir ao longo de gerações.
Em conjunto, estas ferramentas permitem perguntas mais precisas: que aves vão adaptar-se, quais vão deslocar-se e quais vão ficar sem alternativas?
Pequenas mudanças podem salvar aves
As recomendações práticas da revisão são simples, mas concretas, e as mais úteis nem custam dinheiro. Evite colocar caixas-ninho em paredes viradas a sul, onde ficam a “cozer” ao sol da tarde.
Crie jardins com microhabitats variados - solo sombreado, áreas ao sol, plantas altas e cobertura baixa. Disponibilize água e mantenha-a cheia durante períodos de calor.
Nord sublinha que jardins e parques comuns podem tornar-se mais acolhedores com algumas escolhas baratas. Não é preciso ser biólogo para fazer algo.
Repensar como as aves sobrevivem ao calor
A revisão não elimina a suspeita de que as aves estão em apuros. O que acrescenta é um sistema que integra humidade, condição corporal, longevidade e evolução num único enquadramento.
“Our study provides both a framework and a prioritisation scheme for determining when and why birds suffer or even die from overheating, and what we need to find out to make this a less likely outcome in the future,” disse Nord.
Se esta abordagem se generalizar, os responsáveis pela conservação em zonas temperadas poderão sinalizar espécies em risco antes do próximo verão severo - em vez de contabilizarem perdas depois.
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