Um ninho de andorinha-das-chaminés parece sereno e descomplicado. Fica debaixo de um telhado ou de uma ponte, moldado em lama. Lá dentro, alguns ovos aguardam a eclosão.
Em pouco tempo, o ninho enche-se de crias minúsculas, a chamar por comida. À primeira vista, é uma imagem tranquila. No entanto, a vida naquele espaço reduzido depende de um equilíbrio delicado entre temperatura, alimento e sincronização.
Um novo estudo analisou o que acontece quando esse equilíbrio falha. A pergunta é direta: quando o tempo se torna extremo, quais são as crias que mais dificuldades têm?
A resposta varia consoante a idade, o tamanho e o nível de cuidados que recebem dos progenitores.
As crias recém-nascidas são frágeis
Durante um verão, cientistas acompanharam 113 crias de andorinha-das-chaminés no Colorado. Mediram a temperatura nas imediações de cada ninho e observaram com que frequência os adultos alimentavam os juvenis.
“Para perceber como as temperaturas extremas afetam os animais, não podemos olhar apenas para as populações como um todo. Precisamos de ver o que está a acontecer a nível individual e o que torna alguns mais resilientes ou mais vulneráveis do que outros”, afirmou Sage Madden, da Universidade da Califórnia, Davis.
Por isso, o trabalho centrou-se em cada cria, e não apenas no conjunto.
Quando eclodem, as crias são extremamente vulneráveis. Quase não têm penas. Têm os olhos fechados. E, acima de tudo, ainda não conseguem regular a própria temperatura corporal.
Nesta fase, dependem totalmente do calor fornecido pelos progenitores. Os adultos cobrem-nas para as aquecer, tal como fizeram quando estavam a incubar os ovos.
Ao longo da primeira semana, este quadro vai mudando. As crias, gradualmente, começam a conseguir produzir calor por si.
“As aves são simultaneamente ectotérmicas, ou ‘de sangue frio’, e endotérmicas, ou ‘de sangue quente’, na mesma vida”, explicou Madden.
O calor afeta todas as crias
O estudo mostrou que o frio tem um impacto mais severo nos primeiros dias de vida. Se as temperaturas descem logo no início, as crias crescem menos e ficam com menor massa.
Passada cerca de uma semana, o frio tende a ser menos problemático. As crias mais velhas lidam melhor com essas condições porque já conseguem aquecer-se sozinhas.
As baixas temperaturas atrasam o crescimento. Além disso, obrigam os progenitores a dedicar mais tempo a aquecer as crias, em vez de procurar alimento. As duas coisas reduzem o desenvolvimento.
Com o calor, o padrão é diferente. Temperaturas elevadas diminuíram o crescimento em todas as fases. Não importava se as crias eram muito novas ou já mais desenvolvidas.
“Descobrimos que existe uma vulnerabilidade diferente ao frio, mas toda a gente é vulnerável ao calor”, disse Madden.
As crias mais novas sobreaquecem com facilidade porque ainda não conseguem arrefecer o corpo. As crias mais velhas tentam baixar a temperatura ofegando, o que leva à perda de água. Em ambos os casos, o resultado é stress.
Grandes oscilações de temperatura prejudicam
Não é apenas o calor ou o frio, por si só. Oscilações acentuadas entre o dia e a noite também criam dificuldades. Estas variações tornam mais difícil às crias adaptarem-se.
Em vez de investirem energia no crescimento, gastam-na a ajustar-se às condições. Isso atrasa o desenvolvimento.
Dentro de um mesmo ninho, nem todas as crias são iguais. É comum uma delas nascer mais tarde do que as restantes. Essa cria costuma ser mais pequena e mais fraca.
“Muitas aves têm um padrão em que um dos juvenis eclode um dia mais tarde, por isso há uma cria que fica mais pequena do que os irmãos”, referiu Madden.
Essa cria mais pequena tende a receber menos alimento. O estudo indica que também pode ser mais afetada por temperaturas extremas.
Corpos pequenos perdem calor mais depressa quando está frio e aquecem mais rapidamente quando está calor. Isso torna a sobrevivência mais difícil.
Os progenitores podem ajudar no frio
O papel dos progenitores é determinante. O estudo verificou que as crias que receberam mais alimento lidaram melhor com o frio.
Com mais comida, têm mais energia para se manterem quentes. Assim, a alimentação funciona como uma proteção contra o tempo frio.
No entanto, esse apoio não pareceu ajudar muito quando o problema era o calor. O stress térmico em temperaturas elevadas está mais ligado à perda de água e a limites fisiológicos, algo que a comida não resolve facilmente.
Há ainda um compromisso. Progenitores que alimentam mais podem passar menos tempo a cobrir as crias para as aquecer.
Isto torna a situação mais complexa: não é apenas a quantidade de cuidado, mas o tipo de cuidado prestado.
Implicações mais amplas do estudo
Este trabalho mostra que, mesmo dentro do mesmo ninho, as crias não enfrentam os mesmos riscos. Algumas ficam em desvantagem face a outras.
“O nosso estudo fornece uma imagem de como diferentes aspetos do ambiente térmico afetam o crescimento das crias no ninho”, disse Madden.
As crias mais jovens, mais pequenas e menos alimentadas são as que enfrentam maiores desafios.
À medida que o clima se torna mais extremo, estas diferenças aparentemente pequenas ganham peso. Ondas de calor e mudanças súbitas de temperatura podem influenciar a sobrevivência.
As andorinhas-das-chaminés já estão a diminuir em muitas regiões. O stress meteorológico nas fases iniciais da vida pode ser uma das razões.
Um ninho de andorinha pode parecer simples, mas não é. Cada cria depende da combinação certa de calor, alimento e cuidados.
“Este projeto acabou por inspirar toda a minha dissertação”, afirmou Madden.
Pequenas alterações no tempo podem determinar quais as crias que sobrevivem. E, com o passar dos anos, essas alterações podem moldar populações inteiras de aves.
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